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Cada Crente um Teólogo


milanaoJuan Millanao O.
D. Min, professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia, Engenheiro Coelho, SP.

O sentido técnico, especializado e elitista que tem a teologia atual é um fenômeno modeno. Tanto a bíblia como os escritos de Ellen White colocam a teologia ao alcance do crente individual. Esse hábito parece favorecer não apenas o conhecimento pessoal, mas também uma melhor compreensão da natureza das dissidências que afetam a igreja; bem como ajudam a definir cada vez melhor a sua missão no contexto da iminente volta de Jesus.

Necessitamos de teologia na Igreja Adventista do 7° Dia? Em caso afirmativo, que tipo de teologia? Quem são os teólogos? Na tentativa de responder essas e outras interrogações, neste artigo, nos propomos em primeiro lugar definir funcionalmente a palavra teologia. Em seguida, apresentaremos um resumo histórico da evolução da teologia na Igreja Cristã, acompanhada de uma aplicação à Igreja Adventista. Depois analizaremos a importância da teologia para o crente moderno. E, finalmente, buscaremos responder de maneira prática a razão pela qual a Igreja Adventista requer teologia.

DEFINIÇÃO

Teologia é  estudo da relação de Deus com Suas obras,de forma especial com o homem e sua condição. Por extenção, Teologia é também uma disciplina que se esforça para dar uma decalração coerente das doutrinas da fé cristã. Dotada dos grandes princípios bíblicos, a Teologgia busca dar uam resposta aos problemas e dilemas  que os homens e mulheres devem encarar na vida diária. Se bom que seus temas seja atemporais, usa linguagem, conceitos e formas de pensamento que são compreensíveis para os homens e mulheres atuais.

Entretanto, no processo de se tornar compreensíveis para os dias atuais, a teologia precisa evitar dois perigos: primeiro, o de apresentar Jesus como o liberal do presente século. O segundo perigo é o de tratar o século 21 como se ele vivesse no primeiro século. Por isso, a teologia dever ser prática, no sentido de que se relacione com a vida, não simplismente com as crenças.

A partir de outra perspectiva, Ellen White acrescentaria a isso o fato de que a Bíblia é um livre de idéias, é teologia e filosofia:

“A Bíblia contém simples e completo sistema de teologia e filosofia. É o Livro que nos torna sábios para a salvação. Fala-nos do amor de Deus, seguindo é revelado no plano redentor, comunicando o conhecimento essecial a todos os estudantes – o conhecimento de Cristo”1.

EVOLUÇÃO HISTÓRIA

Edward FArley distinguiu três etapas na evolução da compreensão do termo “teologia”2.  A primeira abrange os onze primeiros séculos do Cristianismo. Nesse período, o temo teologia raramente aparece no ambiente cristão. Contudo, o conhecimento de Deus foi parte  integrante do do movimento cristão e sua literatura. Poderíamos entender que, nesse período, teologia foi um conhecimento orientado para a salvação.

Na segunda etapa, da Idade Média até o Iluminismo (séc. 12 – séc. 17), a teologia continua com o sentido de conhecimento de Deus, mas também se separa da compreensão do primeiro período. Esse período, que já envolvia a moderna universidade, é uma época claramente marcada na história do cristianismo, na qual se unem dois elementos: a escola e o esquema doutrinal patrística clássica. O resultado dessa união é a apropriação de ensinamento, especialemente desde a filosofia, em um marco que explora e expressa o esquema clássico.

Em outras palavras, esse período registra uma teologia como ciência ou disciplina, no sentido distintivamente escolático (método de demonstrar conclusões).  A teologia desse período é um estado, uma disposição da alma, que tem caráter de conhecimento, predominantemente prático, não teórico,  com características de sabedoria. A iluminação divina é compreendida  como hábito da alma, conectado com discernimento das escrituras. Essa sabedoria bíblica pode ser promovida, aprofundada e estendida mediante o estudo humano.

Promovida especialmente por Tomás de Aquino, a teologia, nesse sentido, chegou a ser uma disciplina. Produziu-se assim transição entre a aprendizagem e o ensino critão baseado nas Escrituras (santa págima), para uma ciência  aristotélica (santa doutrina). Nesse período, o lugar da escola/escola monástica foi substituído pelas universidades. Posteriormente, com as universidades e com o renascimento de Aristóteles, estabeleceu-se um padrão ou esquema filosófico que passou a chamar o conhecimento de Deus de teologia.

Finalmente temos a etapa que vai do Iluminismo até os nossos dias. algumas idéias dos períodos anteriores são matidas, mas reinterpretadas. Mesmo que a teologia continue como qualidade pessoal, não o faz como sabedoria a serviço da salvação, mas como o necessário “know-how” para o trabalho ministerial. A teologia como disciplina também continua, não como uma empresa unitária de estudo teológico, mas como erudição técnica e especializada, como qualquer outra. Em outras palavras, como teologia sistemática.

Que lições podem ser aprendidas dessa evolução histórica da teologia? Primeira, a advertência de que a dedicação dos crentes individuais à teologia bíblia vai diminuindo no tempo e, paralelamente, seu cultivo passa gradualmente a mãos de religiosos especializados. Através de suas interpretações, esses religiosos determinam o que os crentes podem crer. A segunda lição é a obervação de que a Bíblia perde gradualmente sua centralização como objeto de estudo, sendo substituídapor uma doutrina elaborada pelo agente erudito teológico. Terceiro lição: a teologia que inicialmente iluminou a condição pecaminosa do homem e sua consequente necessidade de salvação, sofreu uma redução e passou a ser uma série de estudos independentes, técnicos e geralmente se unidade, tendo como único elemento centralizador as funções ministeriais.

A INFLUÊNCIA

O impacto causado por essa evolução do termo da teologia no movimento adventista, pode ser melhor observado em certas atitudes assumidas pelos obreiros evangélicos e as reações de Ellen White a essas atitudes.

Talvez o impacto mais importante esteja relacionado com um tipo de conformismo teológico  observado entre muitos pastores. Diante disso Ellen White destacou a responsabilidade pessoal de estudar a Bíblia e chegar a conclusões teológicas nela fundamentadas. Isso foi claro durante a assembléia geral da igreja, realizada em Mineápolis, em 1888. Naquela ocasião, a agenda teológica girou em torno da lei em Gálatas a os distintos  aspectos do livro de Daniel. O Pastor Butler defendia o uso da autoridade administrativa para chegar a uma conclusão final. Ele pensava que os administradores tinham “opiniões mais claras”. Ellen White não demorou na reação a essa tendência, dizendo achar Butler imaginava ser infalível em virtude da posição que ocupava3.

O Enfoque de Butler animou muitos adventistas ao conformismo, no sentido de se considerar um homem que pense por eles como consciência de todos. Ellen White susteve que isso debilita pastores e membros, e que os torna incapazes de permanecer fielmente em seu dever. Ela não concordava em que não fossem estudadas as questões de Gálatas em Mineápolis, porque um homem não estava presente ali4.

Outro intento de Butler e Smith foi a elaboração de algo como um crede para fixar posições teológicas sobre Gálatas e os dez reis de Daniel. A tentativa foi feita em 1886, antes de Mineápolis. Submetida à análise de uma comissão de nove pessoas, o assunto ficou dividido (cinco a quatro).  Diante disso, evitou-se levá-lo à assembléia. No entanto, ficou decidido que não fosse ensinado nada nos colégios até que uma vasta maioria de irmãos o aprovasse,  mediante o estudo e apreciação de líderes experientes5. Considerando  que os dois eram os “líderes experientes”, isso lhes daria poder de veto. Mas apesar disso, não obtiveram a votação formal para executar o plano.

Um dos problemas com os credos é que eles tendem a situar assuntos marginais de interesse presente (ou contingente), ligados firmemente aos assuntos centrais da Bíblia, como marcos fundamentais. Tais novos marcos, uma vez estabelecidos, dificilmente são removidos, pois qualquer tentativa é vista como um ataque direto à fé dos pais. Esse tipo de perpetuidade agrada aos tradicionalistas. Em Mineápolis, noutro momento, diante do desejo de resolver o assunto dos dez reinos e outros, o plenário pronunciou sonoros améns ao procedimento de petrificar a doutrina, que Ellen White não aceitou. Ao contrário, advertiu que antes devia-se estudar conscienciosamente a Bíblia. O método poderia ter impedido a discórdia, porém não representava um acordo harmonioso nem perfeito. A harmonia não podia ser superficial, muito menos repousar sobre profundas diferenças. Era necessário uma teologia baseada na autoridade bíblica para chegar a um acordo. Ellen White argumentou em favor de um estudo aberto dos assuntos envolvidos.  Declarou que “a verdade nada tem a perder por causa da investigação. Deixemos que a Bíblia fale por si mesma, que seja seu próprio interprete… que havia descuido e negligência em pastores que permitiam que outros  a investigassem por eles”6.

Segundo ela,  o conformismo era uma atitude generalizada, fora e dentro da Igreja, que não podia ser aprovada. “A presente geração tem confiado seus corpos aos médicos e sua alma aos ministros. Não pagam eles bem aos seus ministros para estudar a Bíblia em seu lugar, a fim de que não precisem ser molestados? E não é sua (dos pastores) dizer-lhes aquilo em que eles devem crer, e solucionar todas as questões duvidosas de teologia sem investigação especial de sua parte”7.

Advertiu ainda que Satanás “induz o povo a olhar para os bispos, pastores professores de teologia como seus guias, em vez de examinarem as Escrituras a fim de, por si mesmos, aprenderem seu dever.  Então, dominando o espírito desses dirigentes, pode influenciar as multidões a seu bel-prazer”8.

TEMA IMPORTANTE

Poderíamos citar pelo menos  quatro razões, entre outras, que ressaltam a importância da teologiana igreja.

1. Favorece o desenvolvimento pessoal e do caráter. Numa época que dá especial importância à cultura quantitativa, é importante recordar que a verdadeira cultura significa conhecer bem poucas coisas, ao invés de conhecer pouco muitas coisas. Mas o conhecimento deve implicar melhor compreensão de si mesmo. Trabalhar apenas para conquistar um grau acadêmico com seu inerente prestígio social, “significa ignorar voluntariamente um dos maiores paradoxos do crescimento espiritual, de que quanto maior o conhecimento espiritual, mais claramente vemso quão longe estamos da perfeição espiritual… Os primeiros doze discípulos eram os mais comuns dos homens… contudo, não levou muito tempo para que começassem a argumentar sobre quem era o maior”9.

A teologia é importante porque pode favorecer o desenvolvimento do caráter. Uma das melhores opiniões de um não adventista com respeito à pessoa de Tiago White declarou que “esse homem é um cristão mesmo sendo um adventista”10. Os aspectos positivos de caráter cristão são mais úteis que a erudição teológica. “Não são os mais eloquentes em discurso, não são os mais versados na assim chamada teologia os de maior sucesso; mas aqueles que trabalham diligente e humildemente para o Mestre”11.

2. Diferencia o primordial do secundário.  De acordo com II Timóteo 2:14, deve-se evitar na igreja “contendas de palavras que para nada aproveitam, exceto para a subversão dos ouvintes”. É de suma importância que em cada escola e igreja seja “ensinada a mais simples teoria teológica. Nessa teoria, a expiação de Cristo deve ser a grande excência, a verdade central”12.

3. Considera que a exitência humana implica interpretação. Todo conhecimento é uma interpretação. Mesmo quando a fonte é a Palavra de Deus, os homens e as mulheres que a estudam são dinâmicos e mutantes. Lucas afirma: “Muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram (Luc.1:1). E ele mesmo se propõe. “depois de acurada investigação”, escrevê-los “em ordem” (v. 3).  Nosso trabalho sem ter sido testemunhas oculares do ministério de Cristo, é preservar com exatidão o relato das testemunhas oculares e transmitir fielmente os fundamentos da fé cristã às futuras gerações. A teologia deve interpretar Deus. Isso é impossível sem a Bíblia. A interpretação que a Bíblia faz de Deus é simples e profunda: Deus é amor. A teologia e os teólogos devem lembrar que a “a teologia carece de valor a menos que esteja saturada com o amor de Cristo.  Essa teologia é a que desenvolverá uma genuína vitalidade nas igrejas13.  “O ardente, consumidor amor de Cristo pelas almas que perecem é a vida de todo o sistema do cristianismo”, diz Ellen White14. Mas, em segundo contraste, hoje multidões são levados a sustentar errôneas concepções de Deus15.

Considerando que a teologia implica interpretação da parte dos leitores, Ellen White exerceu seu direito e responsabilidade de escrever com precisão em palavras e frases, para evitar repetições de um mesmo assunto e para ter certeza de comunicar a mensagem original, evitando distorções e interpretações posteriores16. Os que nos beneficiamos de seus escritos sabemos que a existência humana, em assuntos de fé, é sempre linguística e interpretativa. Portanto, é evidente que recusar avaliar uma herança como algo não histórico e além de corrupção. Falha-se então em interpretar situações como se fossem normas ou poderes intocáveis17.

4. Provê ferramentas para evengelização de classes especiais. Homens e mulheres de provada qualidade moral beneficiarão a si mesmo e à causa, ou frenquentarão instituições educativas onde puderem ter ” um mais ampo campo de estudoe observação, relacionando-se com diferentes classes de mentes familiarizadas com a obra e resultado dos métodos populares de educação, e um conhecimento de teologia tal como é ensinada nas principais instituições  de aprendizado”. Essa experiência “os ajudará para trabalhar com classes educadas e encarar os erros prevalecentes em nosso tempo. Esse método seguido pelos Valdenses”18.

Existem pelo mesmo três aŕeas que requerem uma constante reflexão teológica dentro da igreja. Enumeramos a seguir essas aŕeas:

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