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A Justificação pela Fé e a Doutrina do Pecado Original

Jean R. ZurcherPor Pr. Jean R. Zurcher, Ph.D.

Este texto é o capítulo 16 do livro Tocado Por Nossos Sentimentos.

A posição de que Cristo tomou a decaída natureza humana têm tido apenas uns poucos defensores através da história do Cristianismo, e aqueles que a ensinavam foram freqüentemente considerados hereges. Isso precisa ser prontamente reconhecido. Mas a verdade não depende do número de seus seguidores. Muitas verdades bíblicas essenciais têm sido distorcidas através dos séculos, em razão de idéias preconcebidas ou conceitos errôneos, resultando num ensino completamente estranho às Escrituras.

O problema da natureza e destino da humanidade é o primeiro exemplo.1 Ao aceitarem a idéia platônica da imortalidade da alma, os pais da Igreja perpetuaram erros graves  com respeito à morte, ressurreição e vida eterna. Do mesmo modo, por desconsideração às informações do Novo Testamento sobre o assunto da natureza humana de Cristo, foram formuladas teorias arbitrárias que resultaram em doutrinas defeituosas.

A Evidência Neotestamentária

Para resolver o problema, é preciso iniciar com uma cuidadosa análise das informações. Um problema bem entendido está meio resolvido. Os dados escriturísticos claramente definidos sobre os quais a Cristologia se apóia, podem ser sintetizados como um paradoxo: Cristo participou da “semelhança de carne pecaminosa”, sem compartilhar de nenhum pecado da humanidade.

Essa afirmação dupla está colocada no coração do prólogo do evangelho de João. Por um lado, o apóstolo declara: “O Verbo Se fez carne”, e por outro afirma que o Verbo “habitou entre nós”… cheio de graça e verdade” (João 1:14). O paradoxo surge do fato de que, conquanto se tenha tornado humano em estado de decaimento, Cristo, não obstante, viveu entre nós sem pecado, em perfeita obediência à lei de Deus.

João torna essa verdade a pedra de toque de sua Cristologia: “Nisto conheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não é de Deus; mas é o espírito do anticristo…” (I João 4:2 e3)

A palavra carne, em João, tem geralmente conotação pejorativa. Seres humanos nascem de acordo com “a vontade da carne” (João 1:13), e julgam “segundo a carne” (João 8:15). E João conclui: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo.” O próprio Jesus sempre opôs sistematicamente “carne” e “Espírito”. “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.” (João 3:6) “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita.” (João 6:63)

Paulo também enfatiza em suas epístolas a oposição entre a carne e o Espírito na pessoa de Cristo. Na introdução  de sua epístola aos Romanos, ele define a dupla natureza de Cristo nestes termos: “… nasceu da semente de Davi segundo a carne; e que com poder foi declarado Filho de Deus, segundo o espírito de santidade (Rom. 1:3 e 4). Então, apelando à grandeza do “mistério da piedade”, Paulo declara uma vez mais os fundamentos da Cristologia: “Aquele que Se manifestou em carne, foi justificado em espírito…” (I Tim. 3:16)

Não satisfeito em afirmar que Cristo é, ao mesmo tempo, carne e Espírito – isto é, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus – Paulo diz que Deus enviou “… Seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado”, assim “na carne condenou o pecado” (Rom. 8:3). Qualquer que seja o significado dado à palavra “semelhança”, isso não significa que a carne de Cristo seria diferente daquela da humanidade em Seu nascimento. Jesus, todavia, não era como Adão antes da queda, pois Deus não criou Adão “em semelhança da carne pecaminosa”.

Em sua epístola aos Filipenses, Paulo destaca o paradoxo existente entre a realidade da condição humana e a perfeição da obediência de Jesus até o fim de Sua vida. De um lado, o apóstolo acentua a plena e total participação de Cristo na natureza humana: “Ele tomou “a forma de servo” (literalmente escravo); Ele Se tornou “semelhante aos homens” e foi “obediente até à morte, e morte de cruz” (Fil. 2:7 e 8). Em outras palavras, embora “nascido de mulher, nascido sob a lei” como todos os seres humanos, por Sua perfeita obediência à Lei de Deus Cristo não apenas “condenou o pecado na carne” (Rom. 8:3), mas tornou-Se o Redentor daqueles que estão “sob a lei” (Gál. 4:5). Com efeito, escreveu Paulo: “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Rom. 8:2)

A epístola aos Hebreus realça esse duplo aspecto da pessoa e obra de Cristo. “Pois, na verdade, não presta auxílio aos anjos, mas sim à descendência de Abraão. Pelo que convinha que em tudo fosse feito semelhante a seus irmãos…” (Heb. 2:16 e 17). Uma vez que os irmãos “são participantes comuns de carne e sangue, também Ele, semelhantemente, participou das mesmas coisas” (verso 14). Portanto, Ele “em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Heb. 4:15). Essa foi a condição necessária para o cumprimento de Sua missão de servir como “um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas concernentes a Deus, a fim de fazer propiciação pelos pecados do povo. Porque naquilo que Ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (Heb. 2:17 e 18)

Esses são os dados bíblicos fundamentais da Cristologia. Ninguém tem o direito de debilitar ou alterar  essas informações com argumentos faltos de idoneidade bíblica.

O Conceito Bíblico de Pecado

Um dos principais problemas da Cristologia envolve mal-entendidos sobre a natureza do pecado. De forma a resolver o problema da natureza humana de Cristo, precisamos determinar primeiramente o conceito bíblico de pecado. Através dos séculos  ele foi entendido de várias maneiras, mas raramente em harmonia com o ensino das Escrituras.

Os católicos e muitos protestantes ensinam a doutrina do pecado original. Há muitos modos de entender essa doutrina, mas o conceito básico é que somos pecadores por nascimento, culpados simplesmente porque pertencemos à família humana como descendentes de Adão. Desse ponto de vista, se Jesus houvesse nascido com a mesma natureza pecaminosa como todos os outros homens, Ele seria um pecador, culpado por nascimento. Conseqüentemente, não poderia ser nosso Salvador.

Tendo adotado essa premissa, em harmonia com os teólogos evangélicos, os promotores da nova Cristologia adventista puderam apenas concluir que “Cristo tomou a natureza de Adão antes da queda”. A fim de ser o Salvador do mundo, Cristo tinha de possuir uma natureza sem pecado, a qual não teria se houvesse nascido com a natureza de Adão após a queda.

Em razão de não haver base bíblica para a doutrina do pecado original, o adventismo tradicional a condenou ou simplesmente a ignorou. Ellen White, em todos os seus escritos, nunca a mencionou. Uma vez apenas ela usou a expressão “o pecado original” em relação ao pecado cometido por Adão no princípio. “Cada pecado cometido”, escreveu ela, “reaviva o eco do pecado original.” 2 Hoje, alguns teólogos de outras confissões, do mesmo modo, consideram a doutrina do pecado original como estranha ao ensino bíblico.3

A fim de compreender o ensino bíblico sobre a questão do pecado, não é suficiente saber que o “pecado é ilegalidade” ou “transgressão da lei” (I João 3:4), e que todos os homens são pecadores “porque todos pecaram” (Rom. 5:12). Os redatores das Escrituras, e Paulo em particular, estabelecem certas distinções sem as quais a natureza humana de Cristo permaneceria incompreensível. Primeiramente, é importante não confundir pecado como um princípio de ação, e pecados como ação.

1. Pecado Como um Poder e Pecados Como Ações

A Bíblia estabelece importante distinção entre pecado, no singular, como o poder da tentação, e pecados, no plural, como atos transgressores da lei. Paulo, em especial, faz a diferença entre o que ele chama de “lei do pecado”, que o mantém “prisioneiro” (Rom. 7:23), e “as obras da carne”, as quais ele classifica (Gál. 5:19-21; Tito 3:3).

Em sua análise do homem “vendido sob pecado”, Paulo especifica que o princípio do pecado vive nele, isto é, em sua carne. Esse princípio atua em seus membros, “guerreando contra a lei …” Assim, “mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo”. “Com efeito, o querer está em mim, mas o efetuá-lo não”. Conseqüentemente, “não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim”. (Rom. 7:14-23)

Paulo define o princípio que torna a humanidade “prisioneira da lei do pecado”, usando várias expressões. Primeiro o chama  de “inclinação da carne” (phronema tes sarkos), opondo-se à “inclinação do Espírito” (phronema tou pneumatos) (Rom. 8:6). A palavra phronema inclui as afeições, a vontade, bem como a razão de alguém que vive de acordo com sua natureza pecaminosa ou de acordo com o Espírito (Rom. 8:4 e 7). Paulo utiliza a expressão “a cobiça da carne” (ephithumian sarkos) (Gál. 5:16 e 17) traduzida freqüentemente pela palavra carne (Rom. 1:24;6:12; 7:7). Finalmente, a expressão “poder do pecado”(dunamis tes hamartia) (I Cor. 15:56) traduz bem o aspecto dinâmico do princípio que opera no homem e o torna escravo do pecado.

Através dessas expressões Paulo não quer referir-se ações do pecado, mas simplesmente às tendências  da carne que impelem ao pecado. Essas são apenas inclinações, não pecados ainda. Mas tais tendências naturais para a desobediência, herdadas de Adão, inevitavelmente se tornam pecados quando cedemos aos seus apelos.

Em sua análise do processo de tentação, Tiago estabelece precisamente a diferença que existe entre “cobiça” (epithumia – ephitumia) e o ato pecaminoso. De acordo com ele, “cada um, porém, é tentado quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência; então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14 e 15). Em outras palavras “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (I João 2:16), são as origens de todas as tentações, como as de Cristo no deserto, tornando-se pecado somente com o consentimento do tentado.

Ellen White confirma esse ponto de vista quando escreve: “Há pensamentos e sentimentos sugeridos e despertados por Satanás, que afetam mesmo o melhor dos homens; mas se esses não são nutridos, se eles são repelidos como odiosos, a alma não é contaminada com a culpa, e ninguém é poluído por sua influência.”4 Qualquer que possa ser a intensidade da tentação, ela nunca é, em si mesma, um pecado. “Nenhum homem pode ser forçado a transgredir. Seu próprio consentimento deve ser primeiramente obtido; a alma tem de querer praticar o ato pecaminoso antes que a paixão domine a razão ou a iniqüidade triunfe sobre a consciência. Tentação, embora forte, nunca é desculpa para pecar.”5

Ellen White escreveu: “O Filho de Deus, em Sua humanidade, lutou contra as mesmas impetuosas e aparentemente esmagadoras tentações que assaltam o homem – tentação à indulgência com o apetite, à presunçosa  ousadia de aventurar-se onde Deus não O conduzira, e à adoração do deus deste mundo, sacrificando assim uma feliz eternidade pelos fascinantes prazeres desta vida.”6 “Ele sabe por experiência quais são as fraquezas da humanidade, quais são nossas necessidades, e onde jaz a força de nossas tentações; pois Ele foi “tentado em todos os pontos, como nós, mas sem pecado’.”7

A diferença entre Jesus e os seres humanos não está no plano da carne ou da tentação, uma vez que Ele “foi tentado em todos os pontos, como nós”. A diferença está no fato de Jesus nunca ter cedido às seduções da carne, enquanto todos nós, sem exceção, sucumbimos a elas e ficamos sob o poder do pecado (Rom. 3:9). Mesmo quando alguém sente o desejo de fazer o bem, não tem em si mesmo o poder para resistir à força do pecado que habita nele (Rom. 7:18). Só Cristo, pelo poder do Espírito de Deus que nEle habitava, foi capaz de resistir “até o sangue, combatendo contra o pecado” (Heb. 12:4). Ellen White confirma: “Embora Ele sofresse toda a força da paixão da humanidade, nunca cedeu à tentação de praticar um simples ato que não fosse puro, elevado e enobre-cedor.”8

Para compreender como Jesus pôde viver sem pecar “em semelhança da carne pecaminosa”, outra importante distinção deveria ser feita: a diferença entre as conseqüências do pecado de Adão, transmitidas a todos os seus descendentes, de acordo com a “grande lei da hereditariedade”9, e a culpa, que não é transmissível de pai para filho.

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CategoriasDoutrina
  1. Ramon Rocha
    23 Outubro, 2009 às 4:42 pm | #1

    Boa Tarde Herbert, fiquei feliz pelo seu e-mail, tenho lido bastante sobre o tema ultimamente, gostei muito do conteúdo, parabéns pela iniciativa de espalhar a verdade presente… Forte abraço…

  2. Andrea Souza
    26 Outubro, 2009 às 4:03 pm | #2

    Olá irmão Herbert. Muito boa a iniciativa de colocar artigos sobre a Justiça pela Fé e Natureza de Cristo em seu site. Aqui no RJ e outros Estados muitos irmãos estão sendo excluídos da IASD por crerem na vitória sobre o pecado e no pós-lapsarianismo. Esses artigos publicados sao muito esclarecedores. Foi boa a idéia tb de publicar trechos do livro do irmão Olvide Zanela – uma bênção. Fique na Paz do Senhor

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